Comentei com o meu amigo Felipe que gostaria de escrever, um dia, um livro que tivesse mistério, romance e ao mesmo tempo aproveitasse meu aprendizado em lexicografia. Tinha até nome: “O dicionarista”. Ok, parece chato, mas há tantos aspectos interessantes no mundo dos dicionários, tantas abordagens filosóficas que eu gostaria de tentar desenvolver de forma atrativa. Disse também pro Felipe que o tal dicionarista teria que ter cometido um crime e estar preso (só um preso ou um louco se dedicaria a fazer um dicionário). Pois bem, o pedante do Felipe (ehehe mentira, nem é!) me informou então (a mim, a mestra) que o livro que eu queria escrever já havia sido escrito!
É “O professor e o louco”, de Simon Winchester, que conta o encontro real de duas figuras: o filólogo James Murray, que dedicou quarenta anos da sua vida à edição do dicionário Oxford (vulgo “OED”), e William Chester Minor, um médico esquizofrênico, que matou um cidadão, foi preso num hospício e de lá se tornou o colaborador mais prolífico do dicionário.
O livro começa com o eminente professor indo ao encontro do colaborador, sem saber da sua real condição:
(…) a carruagem tomou a direção de uma longa alameda margeada de choupos altos, detendo-se afinal diante de uma enorme e um tanto ameaçadora mansão de tijolos vermelhos. Um criado com expressão séria encaminhou o lexicógrafo para o andar superior e conduziu-o a um escritório revestido de estantes com livros, onde, por trás de uma imensa mesa de mogno, ergueu-se um homem de importância indubitável. O dr. Murray fez uma reverência sóbria e lançou-se ao breve discurso de saudação que tanto havia ensaiado.
“Muito boa tarde, senhor. Sou o dr. James Murray, da Sociedade Filológica de Londres, e editor do Oxford English Dictionary. É na verdade uma honra e um prazer chegar a finalmente conhecê-lo, pois o senhor deve ser, gentil cavalheiro, meu mais assíduo companheiro de trabalho, o dr. W. C. Minor, não?”
Houve uma breve pausa, numa atmosfera de constrangimento mútuo. O tique-taque barulhento de um relógio. Passos abafados no corredor. Um distante tilintar de chaves. E então o homem por trás da escrivaninha pigarreou e por fim disse: “Lamento dizer, amável senhor, que não sou eu. As coisas não são de modo algum como está imaginando. Sou, na verdade, o diretor do manicômio judiciário de Broadmoor. O dr. Minor com toda certeza se encontra aqui. Mas como interno. É paciente há mais de vinte anos. Nosso mais antigo residente”.
Adorei a cena, o “homem de importância indubitável” por trás da mesa de mogno. Percebe-se que o autor se dedicou a ela, pensando nuns três ou quatro eventos para fazer suspense (O tique-taque barulhento de um relógio. Passos abafados no corredor. Um distante tilintar de chaves). Em muitos momentos, porém, ocorre o que eu já imaginava que seria o grande desafio: a teoria lexicográfica e os elementos históricos comprometem o romance. De todo modo, estou curtindo muito (odeio essa palavra) o clima Sherlock Holmes do texto.
***
Mais uma do Felipe, logo após a morte do Saramago:
- Tu tem “A viagem do Elefante”?
- Tenho.
- Me empresta?
- Claro.
- É que não gosto de ler autores vivos.
- !?
ahaha
Como estive fora, preciso retomar alguns eventos. E o faço por meio de fotos:
Primeiro e mais importante, a Camilinha, minha afilhada, que nos põe num novo patamar (em 27 de junho):

Depois, tem a Isabel Allende, flagrada na Flip com o desAMORdaçados a tiracolo. O livro também foi relançado no dia 19 de agosto na Bienal do Livro em São Paulo.
 Foto da Mariza, que entrevistou a escritora e a presenteou com a obra.
20 de agosto, dia de festa:
 Apesar de ficar mais velha, é sempre tão bom fazer aniversário! Isso quando a gente aproveita a data pra pensar na vida e reunir pessoas que nos querem bem. É o momento de constatar que alguns permanecem há tanto tempo, outros se agregaram recentemente e outros ainda virão.
E aqui a nova mania. Nada de trabalho intelectual: da síndrome forrest gump para a corrida:
 10 Milhas Mizuno, em 27 de junho
Descobri um blog outro dia que me motivou a escrever de novo. Na verdade, me motivou a escrever para mim mesma – em off. E aí – do off pro on – foi um passo. Escrever para nós mesmos nos permite ser mais honestos, mas também perdemos em alguns aspectos. A possibilidade de alguém ler o que escrevemos nos faz ordenar um pouco melhor os pensamentos. E uma mente ordenada é sempre mais útil.
Uma vez resolvi dar vazão ao impublicável. Achei que seria terapêutico colocar no papel os pensamentos do jeito que vinham, sem filtro. E o que veio foram choramingos – como se o desabafo por si só pudesse ser mais fiel aos meus sentimentos do que os meus escritos e a minha mente claros. Na época, concluí que a busca por esta fidelidade a mim mesma superava o risco de ter meus escritos lidos por alguém. Ou melhor, achava que o risco era zero. Que a minha mãe, a única que poderia se interessar por eles, jamais mexeria nas minhas coisas, como ela sempre me garantiu. Mais tarde, um namorado ciumento – cujas exigências valiam só para mim e não para ele – e, mais recentemente, uma colega, que é mãe e me diz que remexe em tudo, apesar de jurar de pé junto pro filho que não faz nada disso (“quando tu for mãe, tu vai entender!”) – me fizeram perder essa ilusão. Antes de uma viagem, peguei os meus escritos e fiz uma linda fogueira no chão da cozinha, temendo que se o avião caísse alguém os encontrasse (vá entender esses medos póstumos!). Junto, foi-se um poema da oitava série (o “preso se vive, se vive preso”, ai).
Voltando ao blog: é o Vigilantes da Autoestima. A autora vai contando dia a dia como anda a sua autoestima, o que tem feito de bom para si e onde tem tropeçado. De acordo com o sentimento predominante ao longo do dia, ela escolhe uma casinha – de palha, de madeira ou de tijolo. Uma casinha de palha representa uma autoestima fraca, que qualquer brisa derruba; uma casinha de madeira balança, mas não cai tão fácil; e a casinha de tijolo significa uma autoestima sólida, que não cai ao sabor do vento.
Além de escolher o material da casa, ela aponta ações específicas em “o que fiz de bom por mim” e “o lobo mau interno que me detonou”. Tudo muito didático. Fiquei com vontade de me vigiar também. Quando fiz terapia, entendia esse tipo de “vigilância” mais como crítica e cobrança do que como autoconhecimento. Um terror.
Acho que a minha casinha de hoje é madeira (e que na maioria dos dias será assim – palha, só num dia de catástrofe, e tijolo, só no dia do meu casamento ahaha!). O que fiz de bom por mim foi sentar para escrever, embora tenha me amarrado para começar. Me boicotei um pouco comendo mais do que devia (novidade!).
A Vanessa tirou umas fotinhos muito simpáticas de minha pessoa no Rio. Como eu me amo, fiz um pequeno book :-)
 Da esquerda pra direita: 1. belas artemísias!; 2. posso virar pro outro lado?; 3. cenário preferido do Video Show; 4. agora, olhando pra cá; 5. ai, clico o abricó-de-macaco ou a sumaúma?; 6. quanta natureza, chego a perder o equilíbrio.
 1. sempre lindo; 2. braços abertos; 3. nem te conto!; 4. livraria no morro Santa Teresa; 5. perna pra cá, braço pra lá, coluna reta, sorria!; 6. o que vejo!
 Vamos passear de bondinho em Santa Teresa? Imperdível!
Tivemos um certo mal-estar no início da viagem, uma vez que eu saía lindona nas fotos e a Vanessa, digamos assim, prejudicada. Nem todo mundo tem jeito pra gisele bündchen, mas ponderei que ela devia se soltar um pouco. Se espichasse um pouco o braço assim, virasse a cabeça um tantinho pra cá… espera que eu tô achando o melhor ângulo…!!!
A Vanessa se irrita à toa.
Mas vamos à verdade: descobri que TALVEZ eu não fosse lá grande coisa como fotógrafa. Jamais suspeitei. Na viagem anterior (Panamá, Costa Rica, Guatemala), a Noemia e a Vanessa tiraram fotos muito coloridas e expressivas e eu… bem… TIVE CERTEZA de que o problema era a máquina! Desde então eu venho lamentando como a minha sony estragou rápido, bela porcaria.
Agora, no Rio, a Vanessa perdeu os últimos pudores e declarou abertamente a minha limitação. Primeiro, neguei a possibilidade, sempre tive um senso estético apurado. Depois, comecei a pensar “será?”, e então as terríveis comparações: “Vou tirar uma foto aqui, agora tu faz igual”. Bé. O pior: “tu não fez faculdade de jornalismo?”. Fiz?
Resolvi recuperar o tempo perdido. Não bastava enquadrar o rosto da Vanessa e a paisagem ao fundo. Precisava observar os quadrantes, destacar elementos, ajustar o foco. E segurar as mãos, os pés, as mochilas e as cabeças dos turistas.
É um tanto libertador assumir dificuldades. A partir daí, podemos decidir se queremos melhorar ou mantê-las. Ou, caso estejamos do outro lado, se podemos aceitá-las. Em geral, escolhemos como amigos aqueles que nivelam conosco. Somos intolerantes com os fracos, os feios, os burros, os chatos. Mas se o infeliz, de uma hora pra outra, tornar-se forte, bonito, inteligente, talvez isso incomode mais.
Quando eu e meus irmãos reclamamos de certas idiossincrasias parentais, por exemplo, meu pai costuma dizer “estamos ficando velhos, vocês têm que ter paciência”. Ah, mas não se engane! Meu pai não tem essa humildade toda, só o diz porque sabe que “um pai sustenta dez filhos e dez filhos não sustentam um pai”. Também é importante reconhecer o próprio valor.
Enfim, dizendo o óbvio, é pelo conflito que se cresce e amadurece, não o temamos.
Terça-feira de carnaval: Noemia, colegas da Opus e agregadas (eu!) realizaram mais uma edição do tradicional Escambopus, na casa da Janaína. É um encontro que fazemos de tempos em tempos para o escambo de artigos do guarda-roupa que já cumpriram sua missão em nossas vidas. Costumo ir pelo convívio em si, sem qualquer expectativa de trocar alguma coisa, mas surpreendentemente acabo voltando sempre de roupa nova. Das cinco blusinhas que troquei com a Noemia, já usei duas nesta semana.
Como o quórum foi baixo em razão da data, deve sair uma nova edição nos próximos dias, pra podermos despachar logo as sobras pra campanha do agasalho.
Constrangimento – Pois não é que a Noemia teve o desplante de levar pra troca um vestidinho roxo que lhe demos de aniversário há um ano e meio? UM ANO E MEIO! Acabou ficando com a Jana.
 Dois casaquinhos de vovó, algumas blusinhas e um xale. Em cima do xale, um abridor de latas que peguei da Noemia por compaixão.
Já houve até matéria da RBS sobre o Escambopus. Só que nunca foi ao ar! :-)
Essa regra da Anvisa exigindo que os medicamentos não fiquem mais ao alcance dos usuários me lembrou um episódio: entrei na farmácia pra comprar uma manteiga de cacau e o atendente perguntou se eu não queria um paracetamol (!!?). Respondi que não, ele insistiu, disse que estava em promoção. Fiz cara feia, repeti que “não, só a manteiga de cacau”. E ele: “depois, quando a senhora estiver em casa com dor de cabeça, vai se lembrar de mim”. (juro por deus!)
Está simplesmente impossível dormir. Mesmo com dois aparelhos de ar-condicionado ligados, o calor vence disparado. Cris, me empresta a piscininha de plástico!
Em todas as esquinas tem uma lá no Rio: lojas de frozen yogurt, que vem misturado a frutas, caldas e doces.
Diz a Vanessa Lopez que está pra inaugurar uma no Shopping da Barra aqui em Poa. No Iguatemi já tem.
Ouviu essa, Canciam? Eba!
 O melhor está dentro: Confeitaria Colombo, fundada em 1894.
Peixe com dentes, bundas sacolejando e momentos de tensão.
Pero, muy divertido.
 Bem comportado esse bonde. "Cadê os neguinho pendurado nos ladu?"
 Sempre Ele, no alto, abençoando a cidade, bonita por natureza.
 Mais uma vista do bondinho, logo no início do passeio.
 É um Gremlin com dentes? Bem, no menu dizia "congro rosa com arroz de brócolis".
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